O Brasil vive uma revolução no setor elétrico. Cada telhado com painéis solares, cada cooperativa que surge e cada empresa que decide gerar a própria energia representam um novo modelo de consumo e produção. É a chamada geração distribuída, um mercado que cresce de forma acelerada. Atualmente, já são mais de dois milhões de unidades consumidoras com geração própria no país, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Esse avanço abre oportunidades para fabricantes, integradores, startups de tecnologia, investidores e consumidores. Mas também inaugura uma disputa que vai muito além do preço do quilowatt-hora ou da eficiência dos painéis: a disputa por atenção e confiança.
Embora o tema ganhe espaço no noticiário e nos discursos sobre sustentabilidade, a energia distribuída ainda é pouco compreendida pelo público. Muitos consumidores não sabem calcular o retorno do investimento, têm dúvidas sobre regras de compensação e não entendem as diferenças entre modelos individuais e coletivos de geração. Essa falta de clareza abre espaço para desinformação, promessas exageradas e frustrações que podem comprometer a reputação de todo o setor. Ao mesmo tempo, o mercado se torna mais competitivo e pulverizado, exigindo das empresas algo que vai além da tecnologia: a capacidade de construir narrativas sólidas e transparentes.
Em um cenário de transição energética e transformação regulatória, comunicação não é mais um acessório — é estratégia de negócio. É ela que transforma dados técnicos em histórias acessíveis, que mostra resultados concretos, que dá voz a porta-vozes capazes de liderar o debate público. Empresas que investem em comunicação conquistam vantagens reais: educam clientes e os transformam em promotores da marca, ganham espaço qualificado na imprensa, reforçam sua reputação em ESG para atrair investidores e conseguem se antecipar a crises regulatórias, evitando desgastes de imagem.
A geração distribuída, por natureza, nasce do território. Cada telhado, bairro ou cidade pode se tornar protagonista da própria energia. Isso significa que a comunicação também precisa ser próxima, humana e participativa. Contar histórias reais de famílias que reduziram custos, de pequenos negócios que se reinventaram, de comunidades que se tornaram mais sustentáveis é um caminho poderoso para dar legitimidade ao setor. Quem consegue traduzir inovação em impacto tangível gera confiança — e confiança é o que diferencia marcas em mercados emergentes.
Nos próximos anos, a concorrência em energia distribuída será intensa. Empresas que deixarem para pensar em reputação quando o mercado já estiver saturado terão dificuldade para se diferenciar. Quem começar agora a construir autoridade, educar seu público e ocupar o debate público terá vantagem competitiva quando o consumidor e o investidor procurarem segurança e credibilidade. A pergunta que fica é simples: quando o mercado olhar para quem lidera a transformação energética, sua marca será lembrada?
* Artigo publicado no jornal O Tempo, em 17/10/2025
